O Fim

O Fim

By A.J.Ribeiro

Julgo que poucos ainda se aperceberam de que chegámos ao fim do caminho. Chegámos ao fim do caminho iniciado em 1945 com o final da II Guerra Mundial. Chegámos ao fim do caminho de progresso e desenvolvimento. Chegámos ao fim do caminho da solidariedade criada pelo Estado Social, que impedia, no geral, a miséria absoluta. Chegámos ao fim do caminho da Democracia como a conhecemos. Centramo-nos muito em coisas pequenas e não conseguimos vêr a fotografia toda. Chegámos ao fim.

O Mundo que nasceu, cresceu e se desenvolveu depois de 1945 é hoje um velho agarrado à máquina. O Mundo mudou. Envelheceu. E uma vez mais todos esqueceram a História. Que se repete.

Ninguém fala nisso. Os que não o percebem não podem, evidentemente, falar disso. Os que o percebem não querem falar. Compreendo, até certo ponto, isso. Não é fácil falar do fim.

O Século XXI é o século dos grandes blocos económico-militares. Europa. América do Norte. Brasil e Argentina. África do Sul. Índia. Rússia. China. Austrália. E como sabemos quando estudamos História, as transições nunca foram pacíficas. Esta, penso eu, também não será.

A nossa Europa é, hoje, uma sombra do que já foi. Em crise permanente há mais de 10 anos, sem crescimento económico, com Estados que vão falindo uns a seguir aos outros para sustentar uma sociedade que não pode ser sustentada sem crescimento económico. A Europa tornou-se numa espécie de alcateia de lobos com diversos lobos alfa ou lobos menos alfa que não aceitam o serem menos alfa. A Europa da União acabou. Não acabou agora, com a Grécia. Acabou quando os líderes que a criaram e a desenvolveram abandonaram a política e foram substituídos por gente pequena, sem visão nem força, subserviente a interesses globais económicos e industriais. Pior do que isso, líderes que se recusaram a ver – e a informar os seus povos – de que o mundo mudava. Os europeus continuam a viver no passado num mundo que é de um futuro que não será nem fácil nem pacífico.

E uma vez mais julgo que a quebra acontecerá na Europa. A evolução das relações com a Rússia, governada por um ex-agente do KGB – a polícia política da União Soviética – mostra que estamos a caminhar rápidamente para uma situação de conflito. A Ucrânia foi apenas um aperitivo para o que vai acontecer nos próximos tempos. A aceitação europeia e americana do que se passou na Ucrânia é igual, sem tirar nem pôr, à placidez da Europa quando Hitler invadiu e anexou a Checoslováquia. A Moldávia está – embora não se fale nisso – numa situação já muito parecida com a Ucrânia. E na semana passada o Secretário Americano esteve na Europa em reunião com representantes da Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, Bulgária e Roménia. O resultado? O fornecimento imediato de armamento pesado àqueles países e a a preparação para os próximos meses de manobras militares. Um sinal à Rússia de que não será tolerada outra Ucrânia. A resposta da Rússia? O envio de forças militares para as fronteiras dos países bálticos. A História a repetir-se 80 anos depois.

Ao mesmo tempo temos o Médio Oriente a ferro e fogo. A chamada “Primavera Árabe”, tão apoiada pelos líderes europeus apenas acabou com os regimes que mantinham controlados radicais e terroristas. A Líbia é hoje tudo menos um Estado. A Tusia é atacada por ser uma democracia relativamente igualitária. A Argélia não se compreende bem o que é e o Egipto e Marrocos apenas sobrevivem porque se tornaram mais duros e, no caso do Egipto, vão passar a ponta de baioneta os líderes radicais que tentaram transformar aquele país em mais um Estado Islâmico. Ao mesmo tempo, a Europa tornou-se um campo de batalha (ainda) encapotado, entre culturas que tendo sido acolhidas cá não aprecem querer aceitar as nossas próprias regras. Da aceitação da diversidade a Europa caíu na bagunça. Daí às decapitações de empresários, como há dois dias em França, foi um passo.

Muito se fala na Grécia. E bem. Porque a importância geo-estratégica da Grécia é fundamental para a Europa. Porque a Grécia está num ponto geográfico em que funciona como uma das primeiras zonas de bloqueio de um futuro conflito. Os líderes europeus, cegos pela sua estupidez e falta de visão, não compreenderam que a Grécia não é apenas um estado falido – de resto, com a conivência e, mesmo, com a ajuda da Europa. É um porto de entrada, no limite, na Europa daqueles que querem acabar com essa mesma Europa.

Ninguém parece estar a prestar atenção a nada. Apenas aos seus próprios umbigos. Tenho a convicção de que tudo isto vai acabar mal. E não consigo deixar de me envergonha de pertencer a uma geração que tanto se preocupou com o seu umbigo que vai acabar numa qualquer trincheira numa guerra que estou convencido chegará, infelizmente, em breve.

Blogue do autor: Crónicas do Maldizente – António Ribeiro

 

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