A SENHORA DA LIMPEZA

A SENHORA DA LIMPEZA

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Sharon Hayes | Instalação

 – Agora digo – disse D. Quixote – que não foi um mago o autor da minha história, mas algum ignorante palrador, que às cegas e sem um plano se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, o qual, quando lhe perguntavam o que estava a pintar, respondia: «O que sair.» Por vezes pintava um galo, de tal modo e tão mal parecido, que era preciso que com letras grandes escrevesse perto dele: «Este é galo.» E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de um comentário para ser entendida.
– Isso não – respondeu Sansão -; porque é tão clara que não há nela nada que não se entenda: as crianças manuseiam-na, os jovens lêem-na, os homens entendem-na e os velhos aplaudem-na; e, finalmente, é tão folheada e tão lida e tão sabida por todo o género de pessoas, que mal vêem algum rocim magricela logo dizem:«Ali vai Rocinante.» D. Quixote de la Mancha, Parte II, capítulo III



Nada tenho contra a arte contemporânea, havendo, dentro dela, coisas de que gosto bastante. E acredito que a arte, para além da sua essência estética, pode servir também para pensar e mexer com as consciências, não tendo de ser necessariamente um exercício fácil, acessível a todas as pessoas, como refere a personagem do Quixote. Não é forçoso ver um cavalo escanzelado e perceber de imediato que se trata de Rocinante. Mas é essa sua essência estética que deve surgir como fiel da balança que impede o desequilíbrio entre aquilo que compraz os sentidos e a sua dimensão mais intelectual, evitando que uma obra de arte se torne naquilo que não é, neste caso, um objecto mais conceptual, mais virado para o intelecto, do que estético, mais virado para os sentidos. 

Num sentido mais lato, um teorema matemático, uma lei da Física ou da Economia ou uma teoria política têm uma natureza intelectual. Eu posso pensar, esquecendo o meu corpo ou os meus sentidos (o que não significa que não continuem lá mas isso é outra conversa). O famoso Cogito, ergo sum, Penso, logo existo, uma prova da existência de Deus ou a redução da natureza a leis mecânicas, afastam o pensamento humano de qualquer disposição estética. E não, não aceito que o binómio de Newton possa ser tão belo como a Vénus de Milo.

Ora, grande parte da arte contemporânea, e excluo à partida todo o lixo, toda a merda, toda a sucata artística que pretende apresentar-se como arte, protagonizada por gente crescida que nunca chegou verdadeiramente a sair do infantário e que julga que basta espirrar para ser artista, vive mais do significado daquilo que mostra do que propriamente do que mostra, tendo como finalidade, mais do que aquilo que dá a ver, ler ou a ouvir, o comentário analítico suscitado pelo objecto artístico. Se eu ler «Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito» entro num território puramente estético. Se, entretanto, um chinês, que não sabe português, ler isto e quiser entender o significado, recorrendo a um dicionário de Português-Chinês, irá ficar fechado no redutor território do seu significado, do seu elemento conceptual, impedido de aceder ao elemento mais material ou sensível da linguagem poética. Claro que toda a obra de arte tem um significado ou até mesmo um vasto mundo conceptual por explorar. Mas transformar uma obra de arte num produto conceptual não deixa de ser uma contradição nos termos.

Eu fui sempre um péssimo aluno a Matemática, devido a limitações cognitivas que humildemente reconheço. Ora, sempre que leio um artigo no jornal sobre um artista contemporâneo ou que entro num museu de Arte Contemporânea e leio as notas explicativas sobre uma qualquer instalação ou um pintor ou escultor mais conceptual, sinto-me a voltar às minhas explicações de Matemática onde um esforçado e desesperado explicador tentava, muitas vezes em vão, que eu conseguisse perceber o que era aquilo do seno, do cosseno e da tangente. Só que a Matemática é mesmo aquilo e o facto de eu não a entender era problema meu e não da Matemática. Mas se eu olhar para uma instalação contemporânea e não perceber nada do que vejo, sentindo a necessidade de recorrer às notas explicativas para depois perceber ainda menos, o problema não pode ser só meu. Meu, ou desta senhora que se limitou a fazer muito profissionalmente a tarefa de que foi incumbida. Não é para limpar as obras de arte que esta senhora é paga. Mas só pelo facto de neste caso ter levado mais longe o seu zelo profissional, merecia um aumento de ordenado. Um acto, este sim, verdadeiramente estético.
 

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