Já perceberam?

Já perceberam?

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A implosão da Síria e a instabilidade crescente em países da região provocou um imenso fluxo de refugiados em direção à Europa, que veio a somar-se ao tropismo migratório de natureza económica que o caos líbio acentuara. Os Estados da UE que se situam mais próximos desse espaço geográfico foram, pela ordem natural das coisas, os primeiros alvos dessas deslocações populacionais. 

Enquanto esses fluxos se mantiveram em níveis razoáveis, esses Estados foram lidando com essa realidade de uma forma que era comportável nos quadros normativos a que se sentiam obrigados, nomeadamente à luz dos compromissos externos que os vinculavam..Quando a dimensão desses movimentos migratórios aumentou, e na ausência de uma resposta coletiva europeia coerente, alguns desses países revelaram-se incapazes de preservar uma atitude de partilha das responsabilidades coletivas, remetendo-se a lógicas nacionais, às vezes marcadas pela prevalência, no seu tecido político, de forças xenófobas. 
A atitude coletiva europeia passou, a partir de certo momento, a ser desordenada, quase casuística, alternando tempos de afirmada generosidade com outros de retração protecionista. Para um observador comum, a posição da UE acabou por ser lida como uma mera navegação à vista, uma tentativa de ganhar tempo e aceitação nas suas opiniões públicas, esperando, quiçá ingenuamente, que uma atenuação dos conflitos travasse os factos. E, como é da lógica europeia, a UE foi tentando perceber “quanto poderia custar” estabilizar essa mesma serenidade.
É neste contexto que surge aquilo que se pode identificar como a “solução turca”. Por razões geográficas óbvias, a Turquia havia sido o “porto” inicial de acolhimento de grande parte desses refugiados, em especial os do conflito sírio. E, desse “porto”, muitos passaram a sair para o centro da Europa.
Porque se revelam difíceis as soluções no território da UE, esta tenta agora “comprar” que a Turquia “fixe” no seu território grande parte dos refugiados. Com cheques, com promessas de vistos e com uma descarada aceleração do processo de negociação de adesão da Turquia à UE (de que até os turcos deveriam desconfiar). Bruxelas sorri imenso para Ancara, que já percebeu que a tem como refém. Mas isso seria o menos.
Porém, com a sua proposta de fazer regressar à Turquia (forçadamente, está-se a ver) muitos dos refugiados que já estavam em solo europeu, a UE coloca-se flagrantemente à margem das leis internacionais que subscreveu e de que, no plano multilateral, sempre se afirmou como um garante. E isto é um imenso escândalo. Será que os europeus já se deram conta do que está a passar?
 

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